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Vista do pôr do sol sobre montanhas cobertas de neve em Whistler, BC — céu em tons de laranja e roxo

EXPERIÊNCIAS PESSOAIS

Fé e Imigração: Por Que Quase Desisti do Sonho Canadense

Experiências Pessoais 11 min de leitura Caio
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Neste artigo

Numa terça-feira de março de 2025 em Vancouver, eu olhei para o extrato, o CRS e a aba de voos pra Guarulhos — e quase comprei a passagem de volta.

I need your prayer.

PERSEGUICAO RELIGIOSA, PROPRIEDADE EM RISCO E MAIS BIZARRICES DO GOVERNO CANADENSE | EP03

Tem um dia que eu não filmei, não postei, não compartilhei. Não foi por vergonha — foi porque naquele momento eu não conseguia nem formar um pensamento coerente, muito menos estruturar um vídeo.

Era março de 2025, uma terça-feira de inverno em Vancouver. Três da tarde, céu branco, aquela garoa fina que a cidade tem. Eu estava sentado na mesa da cozinha do nosso apartamento, laptop aberto, olhando para três coisas ao mesmo tempo: meu extrato bancário, meu perfil do Express Entry, e a aba de voos de Vancouver pra Guarulhos.

O extrato mostrava um número que me dava frio na barriga. O Express Entry mostrava um CRS que não estava crescendo na velocidade que eu precisava. A aba de voos mostrava que existia uma opção de volta.

Fiquei ali por uns quarenta minutos em silêncio. Não de paz — de paralisia.

Esse artigo é sobre esse dia. E sobre o que veio depois.

O Acúmulo Que Ninguém Vê

Você não chega no fundo de uma hora pra outra. Você chega depois de um acúmulo de coisas pequenas que vão somando.

Eu cheguei no Canadá em setembro de 2024. Os primeiros dois meses foram de adrenalina — tudo novo, tudo interessante, cada coisa banal virava descoberta. Esse período existe pra todos os imigrantes e é genuíno. Você está animado porque tomou uma decisão grande e corajosa, e o mundo está cooperando com a narrativa.

Depois vem o terceiro mês. A adrenalina cede. A rotina começa. E a realidade se instala.

A realidade foi: eu estava estudando num programa de college, com a pressão de manter notas boas enquanto aprendia num idioma que não era o meu. Clara estava procurando emprego num mercado que não reconhecia imediatamente o histórico dela. A rede social que a gente tinha se resumia a um ou dois brasileiros que também tinham chegado recentemente e estavam tão perdidos quanto a gente.

Num domingo, minha mãe ligou do Brasil, feliz, perguntando como estava tudo. Eu disse “tudo ótimo” e depois fiquei uma hora sem conseguir trabalhar.

Não estava deprimido. Estava exausto de um jeito que não tem nome fácil — o cansaço de fazer esforço constante num ambiente que não cede facilidade. Todo ato simples custa mais energia: ir ao banco custa mais porque o inglês ainda fica travado quando estou nervoso. Fazer amizade custa mais porque os códigos sociais são diferentes. Trabalhar no computer custa mais quando a cabeça fica indo pro Brasil.

Esse acúmulo é o que torna a imigração emocionalmente pesada. Não é uma coisa grande que quebra você. São cem coisas pequenas que não param.

Tem mais um elemento que poucos falam abertamente: a distância entre o que você esperava e o que está vivendo. Eu tinha me preparado para dificuldades. Sabia que ia ser difícil. Mas o tipo de dificuldade que eu imaginava era mais concreto — sem dinheiro, sem emprego, sem documento. O que não estava no script foi a qualidade específica do cansaço emocional de viver num país onde você ainda não encontrou seu lugar.

No Brasil, mesmo quando as coisas estavam difíceis, eu tinha contexto. Sabia navegar os sistemas, entendia as pessoas, conhecia os atalhos invisíveis que a gente aprende vivendo num lugar. No Canadá, eu estava aprendendo tudo do zero — os atalhos, os códigos sociais, a forma de interagir com caixas de supermercado de um jeito culturalmente adequado, como fazer uma reclamação sem parecer rude, como pedir ajuda sem parecer fraco. É esse aprendizado constante de normas invisíveis que exaure.

E enquanto você aprende tudo isso, ainda precisa estudar, trabalhar, montar um perfil de Express Entry, acompanhar as mudanças de política do IRCC, cuidar do relacionamento, ligar pra família no Brasil com voz de que tudo tá bem. Você não tem um dia de folga desse esforço. Não tem um dia em que o peso simplesmente desaparece.

Foi nesse contexto que chegou a terça-feira de março.

A Terça-Feira de Inverno

Então chegou aquela terça-feira.

A semana tinha sido ruim de várias formas pequenas. Uma prova que não foi bem. Uma ligação de renovação de visto que durou três horas e terminou sem resolução. Uma notícia do Brasil que não era boa. Um silêncio do LinkedIn que estava se estendendo por semanas.

E ali estava eu, olhando pro extrato. Os números faziam sentido racionalmente — a gente tinha planejado esse período, sabia que seria difícil financeiramente, tinha reserva. Mas quando a cabeça está no estado que estava, os números não entram pelo filtro racional. Entram pelo filtro emocional. E o filtro emocional traduzia: “você está queimando o que construiu e não está chegando a lugar nenhum”.

A aba de voos foi um pensamento quase automático. Um impulso de verificar se a saída existia. E existia — claro que existia.

Fiquei parado nessa aba por uns cinco minutos. Sem clicar em nada.

O Que a Fé Fez (e Não Fez)

Vou ser honesto aqui, porque esse é o ponto em que seria fácil escrever uma narrativa arrumada e eu não quero fazer isso.

A fé não apareceu naquele momento como um raio de luz que resolveu tudo. Não foi um versículo que veio de repente e me encheu de certeza. Não foi assim. Não é assim pra mim.

O que aconteceu foi mais simples e mais humano: eu fechei o laptop, fui até o quarto, joelhei no chão ao lado da cama — do jeito que minha mãe me ensinou a rezar quando criança e que eu ainda faço quando estou no fundo — e fiquei quieto.

Não pedi nada específico. Não sabia o que pedir. Fiquei em silêncio por uns quinze minutos e algo foi se reorganizando. Não a situação — a situação continuava igual. Mas eu fui me reorganizando. Como se a paralisia fosse cedendo espaço pra algo menor e mais manejável: um próximo passo.

Só um. Não o plano inteiro. Só o próximo passo.

A fé funcionou não como um atalho pra saída do problema, mas como âncora. Uma forma de não se dissolver completamente quando tudo está se movendo. Um lugar onde eu podia ser o tamanho real que estava — pequeno, cansado, assustado — sem ter que manter uma performance pra ninguém.

Eu não sei responder se Deus existe da forma que as pessoas esperam que eu responda. O que sei é que a prática de crer me deu, naquele dia e em outros dias difíceis, uma estabilidade que não veio de nenhuma outra fonte.

O Que Veio Depois

Saí do quarto. Preparei café. Abri o laptop de novo.

Não peguei passagem de volta. Não porque tivesse certeza de que estava no lugar certo — ainda não tinha. Mas porque decidi não tomar uma decisão permanente num estado temporário.

Essa frase me salvou mais de uma vez: não tome decisão permanente num estado temporário.

Quando você está no fundo, o estado emocional é real mas não é a verdade inteira. É uma fatia do processo. E decisões tomadas no fundo têm uma tendência a ser decisões de saída, que fecham portas que talvez você quisesse manter abertas.

Liguei pra um amigo brasileiro que tinha imigrado dois anos antes. Ele ouviu. Não deu conselho. Disse “eu sei, cara. Eu sei”. Isso valeu mais do que qualquer conselho prático.

Nos dias seguintes, comecei a ajustar pequenas coisas: estabeleci uma rotina matinal que incluía tempo fora do laptop, comecei a frequentar uma comunidade de fé local (o primeiro evento presencial depois de semanas de isolamento social), e parei de checar o CRS todo dia como se fosse mudar de uma hora pra outra.

Esses ajustes não resolveram nada estruturalmente. Mas fizeram a vida cotidiana mais habitável. E quando a vida cotidiana é habitável, você consegue trabalhar nos problemas reais.

Pra Quem Está Nesse Lugar Agora

Se você está nessa terça-feira de inverno enquanto lê isso — extrato, CRS, passagem de volta aberta numa aba — eu quero que você saiba que isso é mais comum do que o Instagram de qualquer pessoa deixa ver.

Não é fraqueza. É o peso real do processo. É um sinal de que você está levando isso a sério, de que tem muito em jogo, de que você se importa.

Algumas coisas práticas que ajudaram e podem ajudar:

Não tome decisão grande nos dias ruins. O impulso de sair, de mudar de cidade, de largar o programa — processa ele, mas não execute nos dias difíceis. Espera uma semana.

Nomeie o que está sentindo. “Estou exausto” é diferente de “estou fracassando”. “Estou com saudade” é diferente de “cometi um erro”. As palavras importam.

Procure suporte real. No Canadá, o 211 é um serviço gratuito que conecta a recursos comunitários de saúde mental, muitos em múltiplos idiomas. O CAMH (Centre for Addiction and Mental Health) tem recursos para imigrantes. Muitos psicólogos brasileiros atendem online pra clientes no exterior.

Conecte com comunidade. Igreja, mesquita, grupo de brasileiros, clube de esportes, grupo de voluntariado — qualquer estrutura comunitária que te tira do isolamento do apartamento e te coloca em contato com seres humanos de forma regular.

Você não precisa ter certeza de que vai dar certo. Você só precisa decidir que vai continuar hoje. Amanhã você decide de novo.

O Que Mudou Depois da Terça-Feira de Março

Não foi uma virada instantânea. Não tem esse tipo de coisa na vida real, né? O que aconteceu foi mais gradual: fui fazendo ajustes pequenos que foram somando.

A primeira mudança foi parar de medir meu progresso diariamente. O Express Entry não muda do dia pra noite. O saldo bancário não vira do dia pra noite. Mas quando você checa esses números todo dia, especialmente no estado emocional que eu estava, você amplifica a sensação de estagnação. Passei a revisar uma vez por semana, com intenção. Isso mudou minha relação com a ansiedade desses números.

A segunda mudança foi me forçar a estar presente fisicamente com outras pessoas. Eu estava numa comunidade de fé mas tinha deixado de comparecer regularmente porque “estava cansado” e “tinha coisa pra fazer”. A verdade é que quando você está mal, o isolamento é o caminho de menor resistência — e também o caminho que piora tudo. Comecei a aparecer mesmo quando não queria. Com o tempo, aquele espaço se tornou um dos poucos lugares onde eu podia ser humano sem precisar performar progresso.

A terceira mudança foi um ajuste de perspectiva que parece pequeno mas foi enorme: eu parei de comparar o meu ritmo com o de quem fui ser. No Brasil, eu tinha uma trajetória de 28 anos construída. No Canadá, eu tinha menos de 6 meses. É matematicamente impossível ter o mesmo nível de conforto, rede e estabilidade em seis meses. Mas emocionalmente, a gente compara esses dois mundos o tempo todo e sente que está ficando pra trás.

Aceitar que estou num ritmo de começo de jornada — não de fracasso — foi o que possibilitou continuar sem aquela ansiedade paralisante.

O Que Aprendi Sobre a Fé no Processo de Imigração

Imigração testa coisas que ficavam adormecidas na vida confortável. Testa sua paciência, sua adaptabilidade, sua relação com incerteza. E, se você é uma pessoa de fé, testa sua fé de formas específicas.

Deus não aparece como solucionador de problemas burocráticos. A fé não vai resolver seu CRS nem fazer o visto sair mais rápido. Mas ela pode ser o chão quando o chão some — o lugar onde você não precisa estar no controle de tudo, onde pode ser humano e limitado sem isso ser uma catástrofe.

Eu cheguei no Canadá com uma fé que achava que sabia o que era. A imigração me ensinou que fé sem teste não foi realmente testada. E que fé testada e sobrevivida é de outra qualidade.

Não estou pregando. Estou partilhando o que é meu. Você vai ter o seu próprio recurso — seu chão, sua âncora. O importante é que você saiba onde ele está quando precisar.

Estamos junto.

Perguntas frequentes

Por que tantos imigrantes pensam em desistir nos primeiros meses?
Não é uma coisa grande que quebra você — são cem coisas pequenas que não param. Os primeiros dois meses no Canadá foram de adrenalina; depois vem o terceiro mês, a adrenalina cede, e a realidade se instala. Todo ato simples custa mais energia: ir ao banco custa mais porque o inglês ainda fica travado quando estou nervoso, fazer amizade custa mais porque os códigos sociais são diferentes, ligar pra família com voz de que tudo tá bem custa também. Não é fraqueza — é o peso real do processo, sinal de que você está levando isso a sério.
O que fazer quando você sente que vai desistir?
Não tome decisão permanente num estado temporário. Algumas coisas práticas: não tome decisão grande nos dias ruins (espera uma semana); nomeie o que está sentindo ("estou exausto" é diferente de "estou fracassando"); procure suporte real (no Canadá, o 211 é um serviço gratuito que conecta a recursos comunitários de saúde mental, e o CAMH — Centre for Addiction and Mental Health — tem recursos para imigrantes); conecte com comunidade (igreja, mesquita, grupo de brasileiros, voluntariado); e lembre que você não precisa ter certeza de que vai dar certo — só precisa decidir que vai continuar hoje.
Como a fé ajuda no processo de imigração?
A fé não funciona como um atalho pra saída do problema, mas como âncora — uma forma de não se dissolver completamente quando tudo está se movendo. Naquela terça-feira de março, eu fechei o laptop, joelhei no chão ao lado da cama (do jeito que minha mãe me ensinou a rezar quando criança), e fiquei quieto por uns quinze minutos. Algo foi se reorganizando — não a situação, eu. A prática de crer me deu, naquele dia e em outros dias difíceis, uma estabilidade que não veio de nenhuma outra fonte. Fé sem teste não foi realmente testada.
Quais recursos de saúde mental existem para imigrantes no Canadá?
O 211 Canadá ([211.ca](https://211.ca/)) é um serviço gratuito que conecta a recursos por localização, em inglês e francês (e outras línguas em muitos municípios). O CAMH (Centre for Addiction and Mental Health, [camh.ca](https://www.camh.ca/)) tem recursos e linha de crise em Ontario. A Crisis Services Canada atende em 1-833-456-4566 — linha de crise 24h. Muitos psicólogos brasileiros também atendem online pra clientes no exterior.
O que mudou depois daquela terça-feira?
Não foi uma virada instantânea. Três ajustes pequenos foram somando: parei de medir meu progresso diariamente (passei a revisar uma vez por semana, com intenção); me forcei a estar presente fisicamente com outras pessoas (comecei a comparecer regularmente na comunidade de fé mesmo quando não queria); e ajustei a perspectiva — parei de comparar minha trajetória de 28 anos no Brasil com menos de 6 meses no Canadá. Aceitar que estou num ritmo de começo de jornada — não de fracasso — foi o que possibilitou continuar sem aquela ansiedade paralisante.

Recursos de Saúde Mental para Imigrantes no Canadá

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